Enquanto o regime de Pyongyang espera que os Estados Unidos apresentem garantias para sua sobrevivência na cúpula de Cingapura, um homem tenta inundar a Coreia do Norte com pen drives cheios de informações sensíveis que podem ajudar a derrubar Kim Jong-un.

O LÍDER NORTE-COREANO KIM JONG-UN PARTICIPA DAS COMEMORAÇÕES DE INAUGURAÇÃO DE UM BAIRRO DE ARRANHA-CÉUS (FOTO: HOW HWEE YOUNG/EFE)

Para Kang Chol-hwan, desertor norte-coreano que chegou a Sul em 1992, o fato de a violação sistemática dos direitos humanos por parte do regime não ser discutida na cúpula entre os líderes dos EUA e da Coreia do Norte representa não “atacar a raiz” do problema de seu país de origem.

“A questão norte-coreana não é só um tema nuclear, mas também de (violação de) direitos civis”, afirmou à Agência Efe Kang, que acredita que a reunião de 12 de junho em Cingapura “propõe uma solução muito reducionista para a situação vivida na Coreia do Norte”.

Entre os mais de 30 mil desertores que chegaram ao Sul após o fim da Guerra da Coreia em 1953 não é raro encontrar quem deseja a queda do regime e inclusive trabalha em organizações que para isso aconteça.

Mas, para muitos, os 10 anos que Kang passou junto à sua família em Yodok, um dos campos de prisioneiros políticos do regime, o transformam em um dos ativistas mais impetuosos.

Após chegar ao Sul e trabalhar como jornalista para divulgar as duras condições de vida de seus compatriotas, em 2001 lançou junto ao repórter francês Pierre Rigoulet seu livro de memórias “Os aquários de Pyongyang: lembranças do inferno norte-coreano”.

Mas para Kang não bastou só publicar este texto, considerado um dos melhores testemunhos jamais divulgados sobre o horror dos “kwanliso” – os gulags norte-coreanos que, acredita-se, podem abrigar cerca de 120 mil pessoas. Por isso, em 2007, o ativista fundou a ONG North Korea Strategy Center (NKSC), que denuncia estes abusos.

Como diretor da NKSC, Kang está há 11 anos coordenando o envio através da fronteira com a China de, até o momento, mais de 100 mil pen drives, cartões de memória e HDs a um país que bloqueia a internet e controla o fluxo de informações.

Estes dispositivos, fáceis de transportar e esconder, e que a NKSC chama de “armas de informação em massa”, estão repletos de filmes de Hollywood e telenovelas sul-coreanas, conteúdos audiovisuais capazes de mostrar que há outras formas de vida fora da Coreia do Norte.

“Nossa estratégia se baseia em atacar o regime de fora, porque acho que seus três pilares são, em primeiro lugar, a educação e a doutrinação; em segundo, a violência e a repressão do Estado norte-coreano; e, por último, o isolamento, que serve de sustentação para os outros dois elementos”, detalhou Kang.

“Atacamos este terceiro pilar, porque os norte-coreanos não conhecem outras alternativas”, acrescentou Kang com perfeito conhecimento de causa, pois ao sair de Yodok em 1987 conseguiu acesso a um rádio capaz de sintonizar transmissões estrangeiras que, segundo ele, abriram seus olhos e o motivaram a fugir para a China e depois à Coreia do Sul.

Atualmente, o ativista é declarado por Pyongyang como um inimigo do Estado, motivo pelo qual o pequeno escritório no qual trabalham os 15 funcionários de sua ONG fica em uma discreta viela do centro de Seul, sem placas exteriores e protegido pela polícia.

Mas a NKSC não é a única associação de desertores que envia “armas de informação em massa” à Coreia do Norte. Outras ONGs que também trabalham com o respaldo da campanha global Flash drives for freedom (Pen drives pela liberdade) introduzem documentários e arquivos de texto que revelam os abusos e as mentiras do regime.

Cada uma conta com seus métodos e rotas de envio, que no caso da NKSC são três vias diferentes, segundo revelou à Efe seu diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, Park Il-hwan.

Seus pen drives são escondidos em remessas de produtos exportados da China à Coreia do Norte, são transportados pelos famosos contrabandistas que operam cruzando os rios fronteiriços Amnok e Tumen e seus conteúdos são introduzidos em telefones de norte-coreanos com os quais a ONG tem contato na província chinesa de Liaoning.

O destino é sempre o mesmo: os mercados negros surgidos por conta da crise de fome dos anos 90 e cuja existência o regime stalinista teve que aceitar em troca de certa supervisão e de subornos para seus funcionários, o que acabou por transformá-los em porta de entrada ideal para este reino ermitão.

Nestes mercados, os pen drives da NKSC, com horas e horas de entretenimento estrangeiro, podem chegar a valer o equivalente à despesa de um mês em alimentos para um norte-coreano, segundo a ONG.

“Existe uma demanda tremenda e nós simplesmente nos dedicamos supri-la”, concluiu Park.