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A fronteira final dos negócios: a exploração privada do espaço

Uma comunidade de investidores e empreendedores faz com que os custos caiam e as ambições cresçam na exploração espacial

Já está acontecendo; mas poucos de nós temos a real dimensão do negócio. Nos últimos cinco anos, o espaço se consolidou como um mercado em franca expansão, com muitas (e viáveis) oportunidades. 2017 foi um ano bom. Os investimentos no setor somaram US$ 3,9 bilhões, cerca de 30% a mais do movimentado em 2016. Tem mais. O número de lançamentos privados se aproximou consideravelmente do de missões lideradas por agências governamentais — 37 versus 51. Especialistas mapearam a entrada de 120 investidores e 112 empresas no setor. E você imaginando que a exploração privada do espaço era excentricidade do trio de bilionários vaidosos Elon Musk, da SpaceX, Richard Branson, da Virgin Galactic ou Jeff Bezos, da Blue Origin… Bem-vindo à era do empreendedorismo espacial.

Em 2040, segundo projeções do Morgan Stanley, a indústria espacial deve faturar US$ 1,1 trilhão — ante os US$ 350 bilhões de dois anos atrás. A expectativa é a de que o cosmos se transforme em via de circulação para satélites diminutos, de órbita baixa, programados para coletar dados sobre a Terra e levar internet para os cantos mais remotos do planeta. Haverá empresas lançando regularmente foguetes com destino à Lua ou Marte. Algumas promoverão viagens intergalácticas, enquanto outras se dedicarão à mineração em asteroides.

LANÇAMENTO ALTERNATIVO PARA ECONOMIZAR COMBUSTÍVEL E EVITAR DANOS NOS SATÉLITES, A ESPANHOLA ZERO 2 INFINITY USA BALÕES DE HÉLIO

Um dos sinais mais evidentes do amadurecimento do mercado espacial é a proliferação de estruturas dedicadas única e exclusivamente a negócios realizados além Terra. São startups, aceleradoras e incubadoras em busca de um lugar no universo das space techs. Um dos exemplos mais significativos desse movimento é a Space Angels, rede global de investidores-anjo focada em empresas do setor. Fundada pelo economista americano Chad Anderson, a companhia investiu US$ 2,5 milhões na Astrobotic, em 2016. Nascida nos laboratórios de robótica da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, a empresa ilustra à perfeição a mudança no perfil da exploração espacial. De como o interesse no assunto, antes restrito às agências governamentais e à academia, contamina o setor privado.

Em 2007, o Google Lunar XPrize ofereceu US$ 30 milhões a quem levasse um equipamento robótico à Lua. Em 31 de março passado, o prazo venceu, sem que nenhum finalista tenha conseguido alcançar a meta. O prêmio foi cancelado. “É incrivelmente difícil aterrissar na Lua”, escreveram Peter Diamandis e Marcus Shingles, presidente e CEO do XPrize. Ambos ressaltaram, no entanto, que as concorrentes conseguiram arrecadar em torno de US$ 300 milhões em investimentos. A equipe do engenheiro William Whittaker, da Carnegie Mellon, foi uma delas.

Os trabalhos mal haviam começado e os pesquisadores perceberam que só avançariam se tratassem a empreitada como um negócio. “Precisaríamos de mais dinheiro e tínhamos de buscar algo maior do que apenas disputar um prêmio”, diz John Thornton, hoje CEO da Astrobotic. Com o lema “tornar a Lua acessível ao mundo”, o projeto é o transporte de cargas para o satélite natural da Terra. A empresa já fechou uma dúzia de contratos com governos, universidades e empresas privadas. O primeiro voo da Astrobotic está previsto apenas para 2020.

Como o Google, outras gigantes têm planos para a nova corrida espacial. Até o final do ano, a Boeing pretende levar astronautas da Nasa até a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Para a década de 2030, a companhia pretende realizar pousos e decolagens em Marte. Dennis Muilenburg, CEO da empresa, garante: “Acredito firmemente que a primeira pessoa a colocar os pés em Marte vai chegar em um foguete da Boeing”. A Airbus fechou acordo de € 40 milhões com a Agência Espacial Europeia para construir e operar comercialmente uma plataforma de carga, a Bartolomeo, a ser acoplada à ISS, já em 2019.

Os primeiros sinais de que os negócios fora da Terra poderiam ser lucrativos vieram em 2009, quando a SpaceX realizou seu primeiro lançamento comercial de sucesso — e tornou público os gastos com a operação. “Pela primeira vez, foi possível saber quanto custava para entrar em órbita”, diz Anderson, da Space Angels. Até então, acreditava-se que apenas as grandes potências mundiais poderiam bancar a indústria espacial.

Existiam, é certo, aquelas companhias privadas responsáveis pelo fornecimento de produtos e serviços para as agências espaciais. IBM e GM, por exemplo, ajudaram a Nasa a levar o homem à Lua. O modelo de negócios, no entanto, baseava-se tão somente em contratos com o governo. Ao longo do tempo, algumas empresas até tentaram se firmar no mercado, mas acabavam sendo adquiridas pelas gigantes. Por isso, quando o Falcon 9, da SpaceX, subiu ao espaço, do Cabo Canaveral, na Flórida, uma onda de confiança invadiu o mercado. Novas empresas foram fundadas e os custos reduziram. Se em 2000 a Motorola gastava US$ 65 milhões para colocar um satélite no espaço, hoje qualquer empresa do setor pode fazer isso por US$ 1 milhão.

LUA ACESSÍVEL  A ASTROBOTIC PRETENDE SE ESPECIALIZAR NO TRANSPORTE DE CARGA PARA O SATÉLITE NATURAL DA TERRA

Por enquanto, os investimentos mais seguros e rentáveis são em satélites e lançamentos. É para esses setores que vai a maior parte dos investimentos privados. Quase US$ 1 bilhão foi aplicado no setor apenas no primeiro trimestre do ano — 70% para empresas de lançamento. Entre 2016 e 2017, só nos Estados Unidos, o número de decolagens espaciais saltou de 11 para 23.

Para reduzir o custo de lançamento dos pequenos satélites, a espanhola Zero 2 Infinity aposta num sistema alternativo de lançamento. O veículo Bloostar é levado em balões de gás hélio a 40 quilômetros de altitude. Ultrapassada a maior parte da atmosfera terrestre, com menos resistência do ar, a nave é lançada. Gasta-se menos combustível e diminui o risco de trepidação. “Muitos satélites chegam a quebrar nos foguetes por causa da vibração”, diz Guillaume Girard, COO da empresa.

Os satélites modernos são menores, mais leves e pedem substituição mais rapidamente, mantendo o mercado bastante aquecido. O número de satélites em órbita baixa gira em torno dos 1,5 mil. Nos próximos cinco anos, deve chegar a 15 mil.

Apesar do entusiasmo, há de se ter cautela. “Algumas empresas podem se cegar pelas oportunidades. Várias, por exemplo, estão deixando de fazer a proteção tradicional de hardwares espaciais, apostando que os novos chips serão robustos o suficiente. Se funcionar, é uma economia de custos, mas também pode levar a um fracasso caro”, lê-se em relatório da consultoria Gartner Financial Solutions.

“Trabalhar no espaço é difícil, começar um negócio é difícil, e estamos fazendo os dois ao mesmo tempo”, diz Nick Allain, diretor de desenvolvimento de negócios da Spire, empresa voltada para o segmento de pequenos satélites. “Nosso CEO costuma brincar: ‘De quem foi a ideia maluca de criar uma empresa de satélite?’.”

Além disso, esse é um negócio com diversos segmentos, em diferentes estágios de maturidade. “O mercado dos pequenos satélites é bem compreendido, apesar de novos aspectos na operação”, diz Carissa Bryce Christensen, fundadora e CEO da consultoria Bryce Space and Technology. “O que é muito diferente de estar em busca de tecnologia para minerar asteroide e tentar vender esse serviço.” À medida que nos distanciamos da Terra, os desafios aumentam. São os desafios impostos aos empreendedores na conquista da última fronteira.

Fonte
Época Negócios

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