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Como o Google pretende dominar a educação

Nos Estados Unidos, Canadá, Suécia e Nova Zelândia, a gigante americana de tecnologia já é tão onipresente em sala de aula quanto o professor.

Nos Estados Unidos, Canadá, Suécia e Nova Zelândia, a gigante americana de tecnologia já é tão onipresente em sala de aula quanto o professor. A mesma estratégia chega agora às escolas da Bahia, impondo novos desafios aos educadores

ALUNOS DA REDE ESTADUAL DA BAHIA EXPERIMENTAM NOTEBOOKS DE BAIXO CUSTO: ENSINO SE DÁ EM TORNO DAS FERRAMENTAS DO GOOGLE (FOTO: FERNANDO GOMES)

Numa quarta-feira de junho, o professor de geografia Othon Dantas, de 55 anos, iniciou uma videoconferência para discutir a poluição do rio Cachoeira, que corta o centro da cidade baiana de Itabuna. Conversava simultaneamente com 18 estudantes, cada um em seu próprio computador ou celular. Os adolescentes tiravam dúvidas. “O esgoto de casa vai para o rio?” “É verdade que só 14% dos imóveis da cidade têm tratamento de esgoto?” A iniciativa foi dos estudantes, que convidaram o professor para um encontro virtual no Hangout, plataforma de chat e vídeo do Google. O horário oficial da turma, no Colégio Estadual Félix Mendonça, é de manhã, mas a conversa começou às 19h. “Não achei ruim nos falarmos fora do horário da aula”, disse Othon. “Ruim é quando eles não têm interesse.” Não foi a primeira videoconferência entre o professor e seus alunos, nem Othon está sozinho no uso da tecnologia. Ele faz parte de um grupo de 24 mil professores da rede de ensino estadual que se preparam para o que os americanos chamam de “googlização” da sala de aula.

Trata-se de uma dinâmica em que o ensino gira em torno das ferramentas do Google — o conjunto de aplicativos adaptados para a educação e o Chromebook (notebook da marca). Depois de negociar com o Google por mais de um ano, a Secretaria da Educação da Bahia comprou 14 mil Chromebooks para 500 escolas, pouco menos da metade das instituições de ensino médio no estado. Foi a primeira unidade da federação a fechar um acordo dessa escala. Os primeiros equipamentos chegaram no fim do ano passado, num projeto piloto. Mais vão ser comprados num futuro próximo, segundo o órgão. Os políticos gostam, os alunos também, o Google mais ainda. Já os educadores, mesmo os entusiastas do uso de tecnologia — e só é possível ser bom educador com mente aberta para as novidades —, mantêm vivo um debate saudável sobre como usar bem a parceria.

O CABEÇA DA OPERAÇÃO  BRAM BOUT, DIRETOR DO GOOGLE FOR EDUCATION, ESTEVE EM SALVADOR (BA) EM ABRIL DESTE ANO PARA O LANÇAMENTO DE UM PROJETO DE EDUCAÇÃO EM PARCERIA COM O GOVERNO ESTADUAL. SOB SEU COMANDO, A MARCA SE TORNOU LÍDER NAS ESCOLAS DE VÁRIOS PAÍSES

Para entender o que está em jogo, é preciso observar o cenário global de como a tecnologia da informação vem se difundindo pelas salas de aula. Embora seja pouco conhecido no Brasil, o Chromebook tornou-se um fenômeno no sistema educacional nos Estados Unidos. É a máquina número 1 de mais da metade das escolas do país. No ano passado, 58% dos computadores portáteis (notebooks e tablets) vendidos às escolas americanas foram Chromebooks, segundo a consultoria Futuresource Consulting. Relativamente simples, o equipamento não tem disco rígido. Tudo que se produz nele fica na nuvem. Por isso, tem custo baixo (há versões por menos de US$ 200 nos EUA). As vendas às escolas americanas foram de 35 mil para cerca de 8 milhões de unidades entre 2012 e 2017, deixando para trás equipamentos com sistemas operacionais da Apple e da Microsoft. O avanço notável do Google nas escolas se repetiu em países como Canadá, Índia, Malásia, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido. No Brasil e na América Latina, a fatia da empresa nesse segmento é magra. No ano passado, dos notebooks e tablets vendidos para escolas latino-americanas, só 15% tinham algum sistema operacional do Google. O Windows, da Microsoft, é o líder isolado, com 78%. Apesar disso, o Google foi o responsável por puxar as vendas de notebooks no Brasil no primeiro trimestre. Venderam-se mais Chromebooks no país nesse período do que em 2017 inteiro, segundo a consultoria IDC, que não divulga números absolutos por marca. “Quando se conversa com os fabricantes de computador, a previsão de vendas é boa por conta dessa demanda vinda da área de educação [por Chromebooks]”, conta Reinaldo Sakis, gerente de consumer devices da IDC Brasil. Como caso de gestão, é um belo exemplo de tomada de território de outras marcas. Mas estamos tratando de educação, um campo minado onde nenhum passo empresarial é simples nem livre de controvérsia.

A investida do Google em educação não se justifica, por enquanto, com resultados financeiros de curto prazo. Além de não fabricar Chromebooks por conta própria (isso é trabalho de Acer, HP, Multilaser, Positivo e Samsung), a companhia não cobra pelo acesso aos aplicativos de sala de aula. “A gente não olha para a educação como oportunidade de negócio”, diz o americano Bram Bout, diretor global do Google for Education, a divisão responsável pelas iniciativas nessa área. O executivo veio ao Brasil em abril para o lançamento do projeto e-Nova Educação, a parceria entre o governo baiano e a empresa. “Pegamos produtos já desenvolvidos para usuários corporativos, que é onde ganhamos dinheiro, e disponibilizamos para as escolas, sem que isso nos custe muito. Para nós, é quase como uma responsabilidade social.”

Uma das maiores empresas do mundo, com valor de mercado superior a US$ 800 bilhões, a Alphabet (holding do Google) obtém a maior parte do faturamento com anúncios. Em 2017, essa fonte de receita correspondeu a US$ 95 bilhões, de um total de US$ 110,9 bilhões. E a empresa afirma não usar os dados dos alunos para dirigir anúncios. Mesmo assim, a aproximação com as escolas tem sentido como estratégia de longo prazo.

Para usar os aplicativos da marca e o Chromebook, todo aluno tem de criar uma conta, usar um e-mail e armazenar sua produção na nuvem, tudo com o Google. A escola, o professor e o estudante têm liberdade para usar, paralelamente, outros equipamentos e sistemas operacionais. Mas mudar de ferramentas depois se torna mais trabalhoso. “Ao desenvolver um ecossistema forte e focado em educação, o Google mira em lealdade à marca entre pessoas muito jovens”, afirma Mike Fisher, diretor associado da Futuresource Consulting. “Deixar os estudantes familiarizados com as tecnologias da marca para que eles sigam como usuários até chegar ao mercado de trabalho é o que toda companhia quer”, diz Ignacio Perrone, gerente de transformação digital da Frost & Sullivan. Esse é um motivo para a batalha entre empresas de tecnologia pela presença nas escolas. Perrone acompanha de perto essa mesma briga no México. Mas enquanto as empresas disputam o território, há questões mais fundamentais a contemplar. Afinal, a tecnologia vai ser bem usada?

Um alerta comum nesse debate é contra a distração e a sensação falsa de produtividade oferecida por muitos sites e aplicativos — perigos bem conhecidos por qualquer adulto que precise trabalhar e se manter conectado ao mesmo tempo. A sedução de redes sociais e jogos está à espreita, à distância de um deslizar de tela. Susan Dynarski, pesquisadora de políticas públicas na Universidade de Michigan, escreveu um artigo no jornal americano The New York Times, em novembro de 2017, intitulado Laptops são ótimos. Mas não durante uma aula ou reunião. A especialista dissecou alguns estudos, incluindo uma análise de comportamento e notas de estudantes de uma academia militar americana. Concluiu que professores e alunos não estavam conseguindo usar a tecnologia de modo a compensar o efeito dispersivo da internet.

Mais recentemente, no início deste ano, foi publicado o maior relatório independente sobre uso dos Chromebooks em escolas nos Estados Unidos, feito pela empresa GoGuardian. O estudo computou os hábitos de 5 milhões de estudantes e o uso que eles fizeram dos 500 sites mais acessados. A GoGuardian oferece sistemas de monitoramento das atividades online dos alunos, ou seja, é parte interessada. Mesmo assim, o resultado foi considerado revelador por quem entende do assunto. O educador Andy Losik, especialista no uso de tecnologia no ensino e treinador de professores, chocou-se com o resultado. “Parte tremenda do uso do Chromebook é gasta em videogames questionáveis e testes de baixo nível”, afirmou, num artigo publicado em seu blog em janeiro e repercutido por outros educadores renomados. Losik alertou para a ausência, na lista, de sites de criação de conteúdo capazes de estimular a criatividade, e para o conteúdo fraco dos dois endereços americanos mais acessados. Afirmou que professores e alunos estavam se contentando com o “mais baixo denominador comum”. Há outras preocupações no uso da tecnologia, como a privacidade dos alunos. Nenhum desses problemas resulta de imposição do Google, nem pode levar à demonização da tecnologia na sala de aula. Os questionamentos, porém, mostram que professores e escolas vão precisar se preparar melhor para dar a orientação necessária aos alunos.

Quem fica ressabiado com a presença de uma megacorporação nas escolas deve lembrar que educação sempre foi tema quentíssimo entre empresários e empresas de tecnologia. Nos Estados Unidos, o CEO da Netflix, Reed Hastings, investe numa startup que usa algoritmos para determinar as lições de matemática que serão passadas a cada estudante. Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, testa em mais de cem escolas um software que permite ao aluno estudar por conta própria e em seu próprio ritmo. Marc Benioff, CEO da Salesforce, atua como investidor de capital de risco para escolas públicas de São Francisco. Doa dinheiro, mas só se considerar a ideia inovadora. Bill Gates investe em projetos educacionais em diversos países pelo menos desde o ano 2000 (ele sofreu um grande revés na área em 2014, quando a iniciativa InBloom, da Fundação Bill & Melinda Gates, foi cancelada após acusações de não garantir segurança de dados pessoais dos alunos). A empresa que Gates fundou, a Microsoft, tem uma série de iniciativas na área — de aplicações em nuvem ao Minecraft Education Edition, uma edição do jogo de construção por blocos que pode ser usada no ensino.

O interesse dos empresários de tecnologia em oferecer novidades ao setor encontra encaixe perfeito na ansiedade dos educadores por receber logo novas ferramentas. Principalmente nas escolas públicas, os equipamentos parecem uma bênção. Professores ouvidos pela reportagem na Bahia foram unânimes em dizer que os alunos não têm mais paciência de ouvi-los. “O aluno está mais motivado a buscar a informação na rede do que a escutar”, diz Rogério Quintella, professor da Universidade Federal da Ba­hia que esteve à frente do projeto de educação conectada no estado. Fazer lições pelo editor de texto, preparar apresentações com slides ou fazer videoconferências, como a da turma do professor Othon, começam a se tornar práticas corriqueiras entre os alunos. “A Bahia é um grande exemplo de região que compartilha da nossa visão sobre o papel que a tecnologia pode ter na educação”, afirma Bout, do Google. Ele insiste num ponto inquestionável: as ferramentas tornam as aulas mais dinâmicas e interessantes. Mas a visão do próprio executivo sobre como deve ser o ensino mostra que tecnologia não basta — é preciso treinar os docentes para que atuem de forma diferente. “Se você entrar na sala de aula do futuro, não vai ver o professor lá na frente e as crianças sentadas em fileiras. Vai ver grupos de crianças trabalhando juntas e o professor circulando entre elas, como um facilitador.”

Parte do sucesso do Google em território americano se explica pela “evangelização”. O Google chegou a recrutar professores para testar novos apps antes de entrar em contato com o poder público, segundo o jornal The New York Times. Os educadores são considerados os principais propagadores na adoção dos aplicativos da marca nos Estados Unidos. Aqui, a evangelização passou por escolas particulares de renome. A companhia se concentrou nos últimos anos na conversão de instituições referência para o seu ecossistema, como forma de apresentar o modelo à sociedade. A parceria com o Colégio Rio Branco Campinas, onde as máquinas usadas pelos alunos eram desktops Windows, começou em 2015. Em abril deste ano, a instituição recebeu o certificado e troféu de “Escola Referência Google for Education”, que atesta a excelência no uso das ferramentas. Há outras 11 escolas com o mesmo reconhecimento no Brasil e 70 no mundo. O sistema operacional Windows continua como o mais vendido para escolas na América Latina, mas as vendas de Chromebooks dispararam. Espera-se que o resultado da disputa seja estudantes mais bem preparados — e capazes de transitar com naturalidade por diferentes tecnologias, plataformas e marcas.

Fonte
Época Negócios

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