DestaqueMundoNotícias

Incerteza econômica domina eleições no Uruguai e ameaça hegemonia de 15 anos da esquerda

Propostas para retomada do crescimento são uma das principais divergências entre Daniel Martínez, candidato da governista Frente Ampla, e o opositor Luis Lacalle Pou, que devem disputar segundo turno em novembro

O Uruguai encerrou nesta quinta-feira a campanha para as eleições presidenciais e legislativas nacionais, a serem realizadas no domingo. Três dos principais partidos — a Frente Ampla , de esquerda; o Partido Nacional ou Blanco , de centro-direita; e o estreante Cabildo Aberto , de direita — fizeram na noite de quarta os seus comícios finais, e o tradicional Partido Colorado promoveu o seu na quinta.

Daniel Martínez, ex-prefeito de Montevidéu e candidato presidencial da Frente Ampla, no encerramento da campanha; ele deve disputar segundo turno com candidato da centro-direita Foto: PABLO PORCIUNCULA BRUNE/AFP/23-10-2019

Todas as pesquisas indicam que os candidatos da Frente Ampla, Daniel Martínez , e do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou , se enfrentarão no segundo turno em 24 de novembro. Segundo o instituto Factum, a Frente Ampla, que busca o quarto mandato seguido em 15 anos, tem vantagem no primeiro turno, com 40% das intenções de voto, e os blancos têm 28%. Os colorados têm 13%, e o Cabildo Aberto, 11%.

Receitas divergentes

O frente-amplista Martínez é um engenheiro de 62 anos que foi prefeito de Montevidéu até abril. Em sua campanha, ele defendeu os três governos de seu partido, afirmando que deseja “melhorá-los”, e disse que o seu adversário significa uma ameaça de retrocesso social. No comício de encerramento, fez referência negativa ao Chile, abalado por protestos:

— Pegamos o Uruguai em 2005 com 40% de pobreza. Hoje, em 2019, temos 8% de pobreza. O Uruguai é o país da América Latina que melhor redistribui a riqueza — disse. — Temos que gerar riqueza, mas distribuí-la.

Já Lacalle Pou, de 46 anos, que é advogado mas durante toda a vida adulta atuou como parlamentar, praticamente nasceu na política, sendo bisneto de Luis Alberto de Herrera, principal referência do partido por décadas. Seu pai é Luis Alberto Lacalle Herrera, presidente de 1990 a 1995, que, em 2009, perdeu as presidenciais para José Mujica. Na eleição seguinte, o próprio Lacalle Pou foi candidato e perdeu para o atual presidente, Tabaré Vázquez, que foi o primeiro chefe de Estado do ciclo frente-amplista e termina seu segundo mandato não consecutivo. Ele baseou a campanha em um “choque de austeridade”:

— A Frente Ampla deixa desemprego, inflação, fechamento de empresas, dívidas e déficit crescentes — afirmou no comício. — Do nosso lado estão partidos políticos que vão governar de forma austera, que vão gerar mais políticas eficientes.

Como na maior parte da região, a redução do crescimento econômico é um dos principais problemas do Uruguai. O país deve crescer só 0,4% este ano, o desemprego está em 9% e a inflação, em 7,7%. Em agosto, o déficit fiscal foi de 4,8% do PIB, o pior em 30 anos. Existe o risco de recessão.

Os favoritos divergem nas receitas para reverter o cenário. Martínez propõe incentivar a inovação, capacitar 400 mil trabalhadores para adaptarem-se a “transformações produtivas” e apoiar o desenvolvimento de empresas pequenas e médias. Lacalle Pou promete medidas como a não substituição de funcionários públicos e a eliminação de “gastos duplicados e supérfluos”, que, afirma, possibilitarão economizar até US$ 900 milhões por ano, sem afetar políticas sociais.

Crime gera referendo

Segundo as pesquisas, até sete partidos podem se eleger para o Parlamento, na maior fragmentação até hoje. Nenhum deles deve ter maioria na Câmara nem no Senado — hoje, a Frente Ampla o tem nas duas Casas. Mais próximo ideologicamente dos outros dois partidos com mais intenções de voto, Lacalle Pou acenou para a possibilidade de formar “a mais ampla coalizão possível”, e sublinhou a dificuldade que Martínez terá para fazê-lo. O candidato da Frente Ampla se disse próximo dos colorados em pontos como educação e segurança.

Criado neste ano, o Cabildo Aberto atraiu setores nostálgicos da ditadura cívico-militar de 1973 a 1985. Sua emergência foi vista como sinal de polarização política em um país tradicionalmente de centro, como o Uruguai.

A segurança pública foi outro ponto-chave da campanha, depois de um aumento de 35% nos homicídios em 2018, chegando à taxa de 11,2 mortes por 100 mil habitantes — no Brasil, ela é de 30 por cem mil. A votação domingo inclui um referendo sobre uma proposta de reforma constitucional conhecida como “Viver sem medo”, sugerida pelo senador blanco Jorge Larrañaga.

A reforma institui penas mais severas, autorização de buscas noturnas, prisão perpétua passível de revisão e a criação de uma guarda nacional militarizada. Organizações de direitos humanos atacaram o projeto e a Frente Ampla o rejeitou por completo, mas Lacalle Pou mostrou-se ambíguo em relação a algumas propostas. Segundo pesquisa do instituto Opción, 58% dos uruguaios são favoráveis à lei. Para ela ser considerada válida, é necessário obter maioria de votos a favor e ao menos 35% da população precisa votar no referendo, que não é obrigatório.

Fonte
O Globo.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Cresta WhatsApp Chat
Send via WhatsApp
Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Fechar

Adblock Detectado

Considere nos apoiar desabilitando o bloqueador de anúncios