Após conflitos com a China na fronteira, Índia assina acordo militar com os EUA

No ano em que confrontos militares na fronteira entre Índia e China deixaram mortos pela primeira vez em 45 anos, o governo indiano busca reafirmar sua relação militar com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que Washington continua a reunir aliados na Ásia em meio a preocupações com o aumento da atividade militar chinesa na região.

Em uma reunião nesta segunda-feira (26) na capital indiana Nova Déli, o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, e seu homólogo indiano, Rajnath Singh, discutiram “cooperação militar” e futuros exercícios navais envolvendo os dois países, de acordo com um comunicado do ministério de Defesa indiano.

A declaração também indicou que as duas partes assinariam o Acordo Básico de Intercâmbio e Cooperação (BECA) para permitir um maior compartilhamento de informações geoespaciais.

Os exercícios navais de Malabar, que serão realizados no Oceano Índico no próximo mês, contarão com todos os membros do chamado Quad, uma aliança informal dos Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália, que foi proposta por alguns como um espécie de “Otan da Ásia e Pacífico” para contrabalançar a força militar chinesa na região.

Em uma reunião do Quad no início deste mês em Tóquio, o Secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo protestou contra o “encobrimento do Partido Comunista Chinês” nos estágios iniciais da pandemia de Covid-19, e afirmou que “é mais importante do que nunca que colaboremos para proteger nosso povo e parceiros da exploração, corrupção e coerção do Partido Comunista Chinês”

Falando a repórteres após a reunião, um alto funcionário do departamento de estado disse que “não há como evitar o fato de que é a China e suas ações na região que fazem o Quad realmente importar e funcionar desta vez.”

O funcionário disse que uma “mudança repentina em direção a uma agressão grosseira do governo chinês às vizinhanças” alarmava países próximos e apontava em particular para as tensões em curso entre a Índia e a China sobre sua fronteira comum no Himalaia.

Pompeo, que também está em Nova Déli esta semana, disse em um comunicado antes da viagem que a parceria entre os EUA e a Índia é “importante para a segurança e a prosperidade de ambos os países, da região do Pacífico e do mundo”.

“Estamos expandindo a cooperação entre nossos dois militares. Isso inclui nossas marinhas, que desempenham um papel importante em garantir a liberdade de navegação entre o Índico e o Pacífico”, disse ele em um comunicado separado, acrescentando que “os Estados Unidos saúdam o surgimento da Índia como um potência regional e líder global”.

A Índia há muito tenta equilibrar as relações com Washington e Pequim, com quem compartilha uma fronteira muito disputada de 3.379 quilômetros. Essa fronteira tem sido o local de grandes tensões em 2020, após um confronto sangrento entre as tropas indianas e chinesas em junho, que deixou dezenas de soldados mortos.

A assinatura do acordo, conforme indicado na declaração conjunta dos chefes de defesa, provavelmente daria a Nova Déli acesso à inteligência geoespacial dos Estados Unidos, melhorando potencialmente a precisão dos sistemas de armas indianos ao longo da fronteira.

No mês passado, tanto Índia quanto China acusaram a outra de cruzar a fronteira de facto, a Linha de Controle Real (LAC), e as tentativas de redução de tensão enfrentaram dificuldades, embora em 21 de setembro ambos os lados tenham concordado em parar de enviar mais tropas para a área disputada.

Essa tentativa de reduzir a tensão na região não impediu a mídia estatal chinesa de continuar a criticar a Índia.

“Considerando que a estratégia Indo-Pacífico da administração dos Estados Unidos é amplamente percebida como voltada para a China, se Nova Déli pular com entusiasmo na onda de Washington servirá como um cata-vento para o futuro da estratégia dos EUA no Indo-Pacífico”, publicou o jornal estal China Daily em editorial neste mês, posteriormente republicado pelo site oficial do Exército de Libertação do Povo.

“As escaramuças de fronteira com a China podem levar a Índia a se aproximar do lado dos EUA para ganhar mais influência em suas negociações com a China. Mas, seguir cegamente a liderança dos EUA apenas o levará mais perto de um conflito frontal com a China, que não seria do seu interesse “, acrescentou.

Em outro editorial nesta semana, a agência de notícias estatal Xinhua denunciou os próximos exercícios de Malabar, dizendo que eram evidências de que o Quad “está ponderando a cooperação militar e de segurança para interesses políticos próprios”.

“Os membros do Quad precisam perceber que tentar estimular a rivalidade na região vai contra a tendência dos tempos e definitivamente não será aceito pelos principais países do mundo”, disse a Xinhua. “As tentativas de alguns países de defender uma mentalidade de Guerra Fria e criar o caos na região vão apenas dar um tiro no próprio pé.”

Escrevendo no Twitter na terça-feira em resposta a um artigo na mídia indiana sobre como a Índia deveria abraçar o Quad, o diplomata chinês Li Bijian perguntou “você sabe qual será a consequência de brincar com fogo?”

Fonte: CNN Brasil.


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