23 de maio de 2024 12:18

Entenda as falhas do sistema antienchente de Porto Alegre

Proteção criada na década de 1970 tem 14 comportas e 23 bombas de sucção; descaso com a manutenção deixou sistema vulnerável

Proteção criada na década de 1970 tem 14 comportas e 23 bombas de sucção; descaso com a manutenção deixou sistema vulnerável

Depois da enchente histórica que destruiu Porto Alegre (RS) em 1941 e de outra em 1967, a cidade se preparou para proteger-se das inundações. Na década de 1970, foi inaugurado o sistema de contenção das cheias dos rios Guaíba e Gravataí. Mais de 5 décadas depois, o descaso com a falta de manutenção e de investimentos fez com que o sistema ficasse vulnerável e não funcionasse como deveria.

O sistema havia sido projetado para suportar que o nível das águas suba até 6 metros. No entanto, o sucateamento causado pela falta de atenção para a necessidade de cuidar do sistema ao longo de sucessivas gestões municipais e estaduais fez com que o rio invadisse a cidade antes, em 3 de maio, quando a cota chegou a 4,5 metros. Dentre os problemas, há brechas de até 10 cm entre as portas e o muro, motores de comportas que foram roubados e nunca repostos, e bombas que não funcionaram.

O sistema de comportas foi reformado em 2012, assim como o muro da av. Mauá. Ganharam equipamentos que permitiriam a abertura e fechamento de forma mecanizada. De lá para cá, no entanto, a maioria dos motores foi roubada e os demais não tiveram a manutenção adequada e estão sem funcionar.

Atualmente, o fechamento precisa ser feito de forma manual por retroescavadeiras, que empurram ou içam as comportas. Algumas delas podem ser movidas pelos próprios trabalhadores, com auxílio de cordas. E pior: em nenhuma delas não há uma vedação completa entre as comportas e os muros.

Em alguns casos, há brechas que chegam a ter 10 centímetros, por onde a água vaza. O problema é tamanho que a prefeitura, depois de fechar as comportas, precisou recorrer a uma solução medieval e colocou sacos de areia atrás e na frente dos portões de aço para auxiliar na vedação. A solução, porém, se provou 100% ineficiente.

“As comportas não são 100% vedadas. Há frestas que permitem a entrada de água. E uma das provas é o uso dos sacos de areia. Essas estruturas deveriam ser autônomas e herméticas. Saco de areia só se usa para conter a água quando é emergencial e não tem outra opção. É uma alternativa para quando não existe um sistema de contenção”, afirma o professor UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Fernando Dornelles, que é engenheiro civil e doutor em recursos hídricos e saneamento ambiental.

No caso das unidades de bombeamento, a estrutura existente também se mostrou falha. Das 23 bombas que são responsáveis por escoar a água de volta para o rio, só 4 funcionaram efetivamente.

As bombas drenam água de dentro da área protegida para fora através de galerias. O professor Dornelles diz que com a pressão nas galerias e o alto nível do rio, a água faz força para voltar por esses dutos. Essas galerias contam com locais para inspeção cujas tampas se mostraram fracas e não contiveram a pressão, permitindo vazamentos.

“A situação ficou similar a um barco furado que está entrando água por todos os lados e você tenta jogar a água para fora com canequinhas. Ia entrando mais água do que era possível tirar”, explicou Dornelles.

Isso provocou a inundação das estações. E com a água atingindo a parte elétrica das bombas, elas precisaram ser desligadas por risco de choque. Essa foi a principal causa do início dos alagamentos na capital: enquanto as comportas ainda conseguiam reter parcialmente a água, as casas de bomba passaram a jorrar água do rio dentro da cidade.

Como funciona o sistema

A proteção consiste em uma obra que inclui um muro de concreto armado de 2,65 km de extensão, localizado na avenida Mauá, e 14 comportas de aço –metade delas ao longo do muro. Existem ainda 23 casas de bomba, que têm a função de bombear a água que poderia invadir a cidade pelos bueiros de volta para o rio.

O sistema também inclui 68 km de diques de terra, que são uma espécie de barreira. Desses, 24 km são elevações que separam o rio de vias importantes da cidade, como a rodovia BR-290 (conhecida como FreeWay), a avenida Castelo Branco e a avenida Beira Rio. Há outros 44 km de diques internos, às margens dos arroios que atravessam a cidade.

Veja como é o sistema na galeria de infográficos abaixo:

A estrutura foi insuficiente para proteger a capital gaúcha das chuvas fortes. O Poder360 apurou que a água driblou o sistema de 3 formas diferentes:

  • vazamento em comportas – falta de vedação fez a água vazar pelas frestas laterais e por debaixo das estruturas de aço. Uma delas colapsou;
  • falhas nas bombas – a maioria das estações de bombeamento não conseguiu se contrapor à força da água; as bombas ficaram submersas e precisaram ser desligadas por risco de choque elétrico;
  • extravasamento de diques – a água passou por cima dos barramentos de terra, como no dique do bairro Sarandi, onde há risco de a estrutura se romper.
  • A intensidade das chuvas em maio colocou o sistema à prova e mostrou pontos vulneráveis que deveriam ser corrigidos, segundo explica o professor Fernando Dornelles.

“O fato é que os pontos vulneráveis, que são as partes móveis (comportas e casas de bomba) não impediram a água de entrar. Isso foi uma falha. Saber exatamente por que elas falharam é uma investigação que precisa ser feita. Será que se sabia disso? Foi negligência? Quem operava não pensou na hipótese do Guaíba subir 4 metros e como que responderia?”, afirmou.

As comportas de aço do sistema foram fechadas quando a água do Guaíba começou a subir. Das 14 existentes, 3 apresentaram falhas mais graves como vazamentos. Uma delas, a de número 14, se rompeu. A força das águas também levou parte da rodovia que passa por cima da estrutura.

Veja o vídeo que mostra a água passando pela comporta (50s):

Prefeitura foi alertada de problemas no sistema

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), órgão do governo federal, havia emitido um alerta sobre o risco de um possível desastre no Rio Grande do Sul em 30 de abril, quase uma semana antes da 1ª morte pelas fortes chuvas no Estado.

O órgão de monitoramento também divulgou uma nota técnica em 5 de maio afirmando que faltou “resiliência” das estruturas hidráulicas, que são as comportas e bombas de sucção. No entanto, o relatório não menciona a falta de manutenção do sistema. Eis a íntegra da nota técnica (PDF – 131 kB).

O Cemaden afirmou que as estruturas móveis do sistema foram “subdimensionadas” e que, para seu funcionamento, “não se consideraram que os volumes de chuvas”. Na nota, o órgão diz ainda que “os desastres gerados por chuvas intensas são consequência de atividades humanas”.

O professor Fernando Dornelles afirma que o sistema de proteção contra as cheias de Porto Alegre não ficou obsoleto ou precisa ser descartado. Mas necessita, sim, ter suas falhas corrigidas e ser aprimorado.

“O sistema foi bem dimensionado lá atrás quando foi projetado. Agora é preciso executar um projeto de vedação para que essas comportas sejam autônomas, evitando vazamentos. E ter um cuidado com as casas de bomba, sabendo que aquela galeria de descarga vai trabalhar com uma pressão enorme durante as cheias, e garantir que tenham tampas de vedação espessas”, afirma.

O professor diz ainda que, para o futuro, será preciso pensar em um reforço e alteamento dos diques, elevando o nível. E verificar se os diques existentes de fato estão na cota correta para conter as águas em um nível de até 6 metros. Serão esforços necessários para evitar que tragédias como essa se repitam.

Desastre era previsível, mas faltaram investimentos

Investimentos poderiam ter sido feitos para tornar a estrutura mais resiliente. Segundo dados da própria Prefeitura de Porto Alegre, a gestão não investiu nenhum centavo no sistema antienchente em 2023. Desde 2022, o valor destinado a melhorias das estruturas vinha caindo.

Em 2021, foi investido R$ 1,8 milhão no sistema antienchente. O número caiu para R$ 141,9 mil em 2022. No último ano, o valor ficou zerado. A ausência de investimentos aconteceu no mesmo ano em que chuvas fortes atingiram o Rio Grande do Sul, inclusive Porto Alegre, que chegou a fechar suas comportas.

Tudo isso quando especialistas já alertavam para a possibilidade de novos fenômenos como o de 1941 se repetirem por causa das mudanças climáticas.

Em maio de 2021, quando a histórica enchente completou 80 anos, o geógrafo climatologista Pedro Valente, pesquisador do Centro Polar e Climático da UFRGS, disse em entrevista ao Jornal do Comércio que anomalias climáticas como aquela poderiam voltar a acontecer.

Valente explicou na ocasião que para ocorrer um evento desse porte é necessária uma combinação de fatores para além do volume de chuvas, como também anomalias no regime de ventos. O risco seria maior justamente nos períodos de El Niño.

“O Rio Grande do Sul como um todo está numa região geográfica que sofre influência das forçantes tropicais e polares. E essa interação no oceano e na atmosfera é influenciada pelas mudanças climáticas. Antes, fortes chuvas que ocorriam a cada 5 anos, atualmente ocorrem a cada 2 e meio […] O intervalo de ocorrência desses eventos extremos tende a ser cada vez menor”, afirmou o especialista na época.

O que diz a Prefeitura de Porto Alegre

O Poder360 procurou a prefeitura de Porto Alegre por meio do Dmae (Departamento Municipal de Águas e Esgotos), que é o responsável pelo sistema contra as cheias. No entanto, não houve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

Fonte: Poder360.

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